30 de jul de 2008

Tipos 2 – A Abandonada

A sala de espera do consultório é pequena. Sete mulheres nos exatos sete lugares dos dois sofás existentes. Ela surgiu algumas vezes na porta de vidro, sorriu ou exclamou rapidamente para a atendente loura e sisuda. "Vou dar uma volta, é tão grande o hospital". "A senhora pode se sentar, eu não vou entrar agora". Os cigarros se sucedem.

Entra e senta afinal, cruza as pernas brancas e flácidas, de quem perdeu e ganhou peso várias vezes. Camiseta clara, composta, saia jeans. Alta, magra. Cabelos descuidados cortados à altura dos ombros. Olheiras. Uma face perfeitamente esquecível. Mas fala muito, o que chama atenção.

"Como está frio o dia".

"Mas como essa moça – e aponta a revista que tem nas mãos - está gorda, não é?”

Em algum momento incerto a narrativa de sua história se inicia.

O marido trabalha em outra capital. E ela não sabe muito bem por quê, um dia, após trinta anos de casada, ele disse "Olhe, eu não quero mais morar com você".

O porquê, contudo, tem grossos cabelos, um corpo pequeno e moreno, "realmente", enlouquecedor - e segura as própria ancas e seios para demonstrar. "Uma coisa é verdade, ela nunca me incomodou. Esta mulher nunca me telefonou".

E, apesar de tudo, não, ele não saiu de casa. Retorna nos finais de semana, deitam-se juntos na cama e não se tocam. "E nos feriados, também. Natal, ano novo, ele sempre está em casa". Mas a filha casou, e ela está muito só. "Já faz quatro anos". "Não, nunca fui à Fortaleza".

Não sorri em momento algum. Tampouco esboça lágrimas ou pesar.

"Sim, eu vou ao psicólogo. A doutora é ótima".

Relata suas doenças, seus achaques. Diz onde mora. Não, nunca trabalhou. Fala da sogra. "Como ela me detesta". Mas foi ela quem a salvou quando teve seu enfarte, parece que esqueceu!

"Uma coisa é verdade, em minha casa nunca faltou nada".

Outro dia o marido chegou de Fortaleza reclamando "Que dor no pescoço" – e ela mostra onde doeu, mão espalmada. Foram ao médico. "Estou precisando de sapatos", ele diz. Ela o leva ao shopping.

Quando ela entra no consultório, eu a vejo à janela do prédio em que mora, entre espirais de fumaça do cigarro.

Quando sai, está sorrindo.

"Boa sorte."

"Para você também, querida".

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