29 de jun de 2016

O que o amor quer mesmo, de verdade? O amor quer decifrar o Outro. E ao mesmo tempo devorar.

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo

27 de mar de 2016

"Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo...
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui" (Caetano Veloso)

18 de dez de 2015

Amado mais
Chorado mais
Arriscado mais e até errado mais
Feito o que eu queria fazer
Aceitado as pessoas como elas são

Complicado menos
Trabalhado menos
Me importado menos com problemas pequenos
Morrido de amor
Aceitado a vida como ela é

O acaso há de me proteger enquanto eu andar distraído

14 de jul de 2015

Não mais


Escrevo para rasgar o linho grosseiro do vazio.
Sou irmã das mágoas, das águas sou pária.
Não apura o coração o lento pulsar das folhas sob a chuva.
Como compreender a ausência de sentido?
A água parada só para,
a água que corre só corre.
Donde motivos?
Contempla a natureza,
 estende olhos sem medo para a insignificância das coisas mais eternas
que tecem razões pestanejantes para nossos lábios,
infindas para o escuro universo que se expande,
a ignorar nossos tremores...

6 de ago de 2014

O fim do amor


O que se perde não tornará.
Apenas saudade rota.
Depois, nem saudade mais.
Inexistiu.
Nunca houve.
Cinza apagada do cigarro que não se fumou,
e mesmo assim veio o vento … levou …
O que fica?
Não fica nada.
Apenas a moldura à espera do retrato novo.

4 de abr de 2014

Alguns passados jamais terminam. Apoderam-se do tempo, cavalgam-lhe a crina - e são então um só, desarvorados num galope estanque...

19 de dez de 2013

Sim, porque é natal

Se existe algo que aprendi com minha muito amada mãe foi sobre a generosidade. Quem conhecer Dona Judite razoavelmente entenderá sobre o que estou falando.

A generosidade, na imensa maioria das vezes, é confundida pelas pessoas com a ausência de força, do que não se trata. A generosidade, de fato, possui muito maior relação com uma compreensão sobre o que não somos realmente. E há algo que realmente não somos : seres que não necessitam uns dos outros. Necessitamos, e necessitamos prá valer. Somos seres que se precisam, se completam, se conjugam, e nesta hora mesmo a gramática se perde...

Esses pensamentos me reportam ao Paulo Coelho, este autor tão amaldiçoado. Eu mesma, confesso, anos atrás sucumbi à pressão dos comentários (e, sim, o Paulo tem defeitos), mas em um de seus livros (O Zafir, salvo engano), ele fala sobre a “rede de favores”. Que seria justamente esta ideia de que não fazemos o bem senão a nós mesmos quando nos movemos com generosidade em direção ao outro. Fazemos hoje, mas voltará depois.

Se estou indo longe demais podem avisar, mas o fato é que este conceito me recorda um ensinamento ainda mais distante: o “dar a outra face”. O “dar a outra face” é importante e faz bem! Por mais estranho que aparente.

Então, e porque é natal (sim, por que não?), que isso faça sentido. Mas faça sentido o ano todo!

Feliz natal, pessoas!

28 de nov de 2013

Resíduo


... e parte o tempo que restara,
desfaz-se a relutante cinza,
e fica a sombra do sorriso que nossa face não conteve,
que vira voz e verso breve,
redemoinho de canção que passa
e segue...
...e que porque não principia não se finda...
...e mesmo a areia esquece...