24 de out de 2007

Quereres

Quero não ser violada,
não ser agredida,
não ser usurpada.
Quero ir e vir como deseje.
Quero apenas coisas simples como vêem.
Ser reconhecida pelo que faço.
Um jardim simples para cultivar.
É bem pouco o que peço.
Quero não precisar pedir o que tantos necessitam buscar:
saciar o corpo de alimento e água,
a cama, o teto, de abrigar,
a pele de vestir.
O mais difícil, eu até quero também, como é notório -
meus amigos,
meus quereres,
minha estrela,
minha estrada,
algumas quimeras que aqueçam a alma,
um tanto de sinceridade.
Já quis mais - sempre se quer na juventude -
um mundo mais amplo, mais claro, humano.
Quero ainda -
mas não quero mais com o vigor necessário.
Fui vencida,
eu confesso.
Sou fraca e não sou patética, dispenso demagogias.




Ontem, perto das 18:30h, estacionava próximo ao Parque da Jaqueira quando roubaram meu carro. Eu estava dentro dele, de cabeça baixa, ajeitando o tênis antes de ir caminhar na praça - fiz uma rotina que já repeti milhares de ocasiões. Estacionei no mesmo lugar de sempre - uma das quatro últimas vagas à direita de quem chega ao Parque da Jaqueira pela Rua Simão Mendes. Ouvi um barulho forte do lado direito, olhei, um homem alto, moreno e forte, de capacete de motoqueiro e jaqueta preta batia no vidro com uma grande pistola prateada. Levei dois segundos - um para entender, outro para pensar em ir embora (o carro ainda estava ligado) e desistir - antes de abrir a porta e descer, cedendo-lhe o carro. A chave ficou na ignição. Enquanto me levantava, peguei o celular que estava no banco do carona, ele tomou de minha mão, abrindo-a. "Fique calmo, eu dou", ele disse. "Eu estou calmo", ele respondeu.

Foi rápido, eficiente, projetado. Ele levou o carro e seu comparsa ficou na moto observando-me atravessar a rua, meio tonta. Fui embora e ele continuou lá.

Eram dois homens em uma ação comum, foi este meu sentimento. Eu era a única que estava sem o roteiro e minhas falas da peça. Ou não.

A foto acima extraí do blog PEBodyCount. Trata-se do projeto Marcas da Violência, "que consiste em marcar - com tinta vermelha a imagem de um corpo com a palavra "BASTA" - todos os locais de homicídios do Recife. Já são mais de 30 marcas por todas as regiões (Sul, Norte, Oeste e Centro) da capital."

Não me ocorreu nada fisicamente, felizmente. Mas enfim, havia uma arma em cena - e muitas coisas poderiam haver acontecido, é fato, e felizmente não aconteceram.

Um comentário:

Emerson disse...

Puxa, Sweet. :-(

Que bom que, ao menos fisicamente, não te aconteceu nada. Fica bem.