27 de mar. de 2016

"Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo...
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui" (Caetano Veloso)

15 de jan. de 2016

18 de dez. de 2015

Amado mais
Chorado mais
Arriscado mais e até errado mais
Feito o que eu queria fazer
Aceitado as pessoas como elas são

Complicado menos
Trabalhado menos
Me importado menos com problemas pequenos
Morrido de amor
Aceitado a vida como ela é

O acaso há de me proteger enquanto eu andar distraído

14 de jul. de 2015

Não mais


Escrevo para rasgar o linho grosseiro do vazio.
Sou irmã das mágoas, das águas sou pária.
Não apura o coração o lento pulsar das folhas sob a chuva.
Como compreender a ausência de sentido?
A água parada só para,
a água que corre só corre.
Donde motivos?
Contempla a natureza,
 estende olhos sem medo para a insignificância das coisas mais eternas
que tecem razões pestanejantes para nossos lábios,
infindas para o escuro universo que se expande,
a ignorar nossos tremores...

6 de ago. de 2014

O fim do amor


O que se perde não tornará.
Apenas saudade rota.
Depois, nem saudade mais.
Inexistiu.
Nunca houve.
Cinza apagada do cigarro que não se fumou,
e mesmo assim veio o vento … levou …
O que fica?
Não fica nada.
Apenas a moldura à espera do retrato novo.

4 de abr. de 2014

Alguns passados jamais terminam. Apoderam-se do tempo, cavalgam-lhe a crina - e são então um só, desarvorados num galope estanque...

13 de jan. de 2014

19 de dez. de 2013

Sim, porque é natal

Se existe algo que aprendi com minha muito amada mãe foi sobre a generosidade. Quem conhecer Dona Judite razoavelmente entenderá sobre o que estou falando.

A generosidade, na imensa maioria das vezes, é confundida pelas pessoas com a ausência de força, do que não se trata. A generosidade, de fato, possui muito maior relação com uma compreensão sobre o que não somos realmente. E há algo que realmente não somos : seres que não necessitam uns dos outros. Necessitamos, e necessitamos prá valer. Somos seres que se precisam, se completam, se conjugam, e nesta hora mesmo a gramática se perde...

Esses pensamentos me reportam ao Paulo Coelho, este autor tão amaldiçoado. Eu mesma, confesso, anos atrás sucumbi à pressão dos comentários (e, sim, o Paulo tem defeitos), mas em um de seus livros (O Zafir, salvo engano), ele fala sobre a “rede de favores”. Que seria justamente esta ideia de que não fazemos o bem senão a nós mesmos quando nos movemos com generosidade em direção ao outro. Fazemos hoje, mas voltará depois.

Se estou indo longe demais podem avisar, mas o fato é que este conceito me recorda um ensinamento ainda mais distante: o “dar a outra face”. O “dar a outra face” é importante e faz bem! Por mais estranho que aparente.

Então, e porque é natal (sim, por que não?), que isso faça sentido. Mas faça sentido o ano todo!

Feliz natal, pessoas!

28 de nov. de 2013

Resíduo


... e parte o tempo que restara,
desfaz-se a relutante cinza,
e fica a sombra do sorriso que nossa face não conteve,
que vira voz e verso breve,
redemoinho de canção que passa
e segue...
...e que porque não principia não se finda...
...e mesmo a areia esquece...

27 de nov. de 2013

Porque a poesia renasce todo dia






FELIZ, INSUPORTAVELMENTE


Para Mario Benedetti, hermano


Aos poucos a luz perde o resplendor.
O rio sabe a sangue, e ninguém sabe.
É a derradeira chance de me ver
pela primeira vez inteiro: cara a cara.
Simplificar prefiro. Por que hesito
em revelar as águas escuras
que me percorrem, essas onde moram
peixes cinzentos, surdos, que me sabem?
Dizer me basta que não cometi
o pecado pior do homem:
o de não ser feliz (O juízo é de Borges,
que era cego, mas descobriu a rosa
escondida no coração da moça.)
Vi o fundo de um lago de esmeraldas.
Eu fui feliz, insuportavelmente.
As desgraças que duras me feriram
nada foram (contando a de existir)
ao lado dos milagres que vivi,
dos mágicos momentos que inventei.
Não é preciso ir longe. Numa noite
de ardente primavera eu viajei,
abraçado aos cabelos desvairados
que me ensinavam o cântico dos cânticos,
pelo mar dos espaços siderais.
Voltei intacto. Parece que passaram
eternidades.
Sozinho agora sou: perante mim,
ou entre mim e a noite que me chama,
espaço em que mal cabe o que escondi.
E mais de meio século de festa,
de lágrimas, de assombro, de ternura,
inútil se resume na fagulha
fugaz do tempo em que meu ser total,
resíduo de memórias, já se adere
— imperceptível —
ao silêncio noturno da floresta.


(THIAGO DE MELLO)

5 de set. de 2013

Prá dormir bem. E zen. Boa noite


31 de ago. de 2013

Reflexos de uma tarde gris

Algumas pessoas vêm ao mundo, vocês olha suas fotos (fotos são tão fáceis nesses dias!), são tão perfeitas, naturais, simples, puras! Somos nós os antinaturais. Os que desejam desvirtuar a harmonia. Os cujos sonhos maculam as noites. Os inquietos da vigília. Aqueles, os outros, permanecem em suas redomas de fantasias e cores. Que direito temos nós de tirá-los de lá? Quebrar o vidro? Nenhum. Deixa eles lá.

6 de jun. de 2013

23 de mai. de 2013

1 de mai. de 2013

Sitemeter morreu. Acho que depois de quase um mês dá para dizer que é oficial.

12 de abr. de 2013

Hoje

Sentimento bom de força que nunca seca. Paz na alma. Essas coisas, se aproveita.





"Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me."
(Lêdo Ivo)